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Um capelão do IBP para Hospital do Pará

06 Novembro 2017

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP

O dia da festa do Santíssimo Nome de Maria foi repleto de graças para o meu incipiente ministério sacerdotal. Tendo chegado em Belém do Pará no dia 9 de setembro, para onde fui designado pelos meus superiores, já no dia 12, em que a Igreja comemora a vitória católica em Viena contra o Império Otomano em 1683, o senhor Arcebispo, Dom Alberto Taveira Corrêa, concedia-me não apenas o uso de ordens como também me nomeava capelão do Hospital da Benemérita Sociedade Beneficente Portuguesa, em substituição do Reverendo Padre Tomás Parra, IBP, que atualmente reside na Casa de São Paulo.

Com efeito, as minhas atividades de capelão deveriam no mínimo “rivalizar” com a dos meus antecessores, que são sempre recordados por funcionários, pacientes e familiares como zelosos sacerdotes. Frei  Nestor Windolph, que por mais de 30 anos atuou como capelão deste Hospital—e que, assim como eu,  também celebrou o Rito Romano tradicional para o grupo estável de fiéis desta Arquidiocese—, costumava visitar a UTI da Beneficente Portuguesa às 3 da manhã, para rezar por cada paciente. Padre Glaucon Feitosa, capelão desde 2013, a quem o Padre Tomás Parra veio primeiramente ajudar e depois substituir em 2016, desenvolveu uma intensa vida espiritual para toda a “família” do Hospital, incluindo a exposição do Santíssimo Sacramento e o novenário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Do meu confrade no Instituto Bom Pastor, Padre Tomás Parra, recebi a experiência de quem visitou muitos pacientes e inclusive ajudou uns a voltarem para o grêmio da Santa Igreja Romana e outros a morrerem santamente, munidos dos Sacramentos e confortados pela sua palavra.

O exercício desta função não ignora nenhuma das etapas da formação sacerdotal. O capelão de Hospital não se contenta em administrar os Sacramentos aos moribundos, quando solicitado pelos seus familiares, mas deve principalmente ir ao encontro dos pacientes, batendo à porta de cada apartamento do Hospital, entrando nas enfermarias, apresentando-se e pondo-se à sua disposição como instrumento da graça de Deus. Assim, o capelão não fica apenas à espera dos católicos convictos, mas precisa suscitar essa convicção em muitíssimas almas vítimas da ignorância religiosa, do afastamento da Igreja, ou simplesmente da “preguiça” de se reconciliar com Deus, de quem julga que o seu caso não é suficientemente grave para se pedir um sacerdote. A cada conversa, em cada apartamento, a cada ala ou enfermaria o capelão deve ter uma palavra certeira, adequada à circunstância, seja para convencer os pacientes de que eles precisam da graça, seja confirmar na Esperança pacientes e familiares abatidos pela enfermidade ou desiludidos com a cura. Esta palavra certeira não é menos do que o fruto de anos de estudo de Filosofia e Teologia, de leitura espiritual, de aprendizado com a experiência de outros sacerdotes e da própria vida de oração, mas quão difícil às vezes de achá-la, de modo que a cada visita o capelão não se reduza a um mero “profissional do sagrado”, com discurso pronto e tempo cronometrado, mas um Médico de almas, preocupado em diagnosticar o que separa aquelas almas de Deus para aplicar o remédio que a cada uma convém. Donde a minha certeza de que o Instituto Bom Pastor, formando sacerdotes na escola de Santo Tomás de Aquino e na mais obediente fidelidade ao Magistério e à Tradição da Igreja, educa-os a esta universalidade do ministério sacerdotal, em que se deve ser “tudo para todos a fim de salvar a todos” (I Cor. IX, 22).

Nada disso seria possível se não fosse a liberdade de que usufruo dentro da Beneficente Portuguesa. O capelão pode entrar e sair quando bem quiser, visitar todos os apartamentos, alas e enfermarias quando bem quiser, celebrar Missa e outros atos de culto ou devoção na capela do Hospital em qualquer dia e horário da semana. Em tempos de relativismo e laicismo, este Hospital se mantém “fiel às suas raízes portuguesas e católicas”, como me disse um dos seus diretores. “Em Portugal se conservará o dogma da Fé”, disse Nossa Senhora em Fátima. Este Hospital é uma dádiva de Portugal e de Nossa Senhora em solo paraense, no qual eu tenho o privilégio de ajudar as almas a (re)encontrarem a graça nesta vida e a glória na outra.

Faço-me presente no Hospital sempre à tarde, visitando alas e enfermarias. Nessas visitas, procuro transmitir não apenas a doutrina católica a respeito do cuidado com o enfermo, mas também a alegria cristã, fundamental para que paciente e familiares não dêem entrada à tristeza que vem do mundo, e que produz a morte (cf. II Cor. VII, 10). Para tanto, ao entrar e ao me despedir, uma brincadeira, uma descontração. Quem vê o sacerdote entrar num apartamento ou enfermaria e julga que ele vem necessariamente falar de verdades ruins e ameaçadoras, precisa perder o temor daquele que é o ministro de Jesus Cristo, que não veio para condenar o mundo, mas para salvá-lo (cf. Jo. XII, 47).

Quanto à vida espiritual e litúrgica do Hospital, rezo o terço do Rosário de segunda a sexta-feira e aos domingos às 17h00 na sua capela, dedicada à Imaculada Conceição. Um alto-falante transmite a oração ao salão principal, na entrada da instituição, por onde circulam centenas de pessoas diariamente—dentre funcionários, pacientes e familiares—, convidando-as à oração. Alguns pacientes e familiares, não podendo ir à capela, abrem as portas de seus apartamentos, a fim de acompanharem a oração que ouvem pelo alto-falante. Assim, as Ave-Maria do sacerdote são respondidas por um pequeno coro dentro da capela e por outro coro que vem de fora, unidos na mais estreita comunhão de oração.

Após o terço do Rosário celebro a Santa Missa no Rito Romano tradicional, como não podia ser diferente para um sacerdote do Instituto Bom Pastor. Talvez se pense que este Rito só deva ser celebrado para grupos que o pedem—dos quais se presume a devida preparação—, numa capela ou igreja reservada e num horário oportuno, para impedir que os demais fiéis sofram o “choque” de encontrarem uma Liturgia da qual eles não entendem a língua e cujo celebrante lhes dá as costas. Não obstante, não foi esta a intenção de Bento XVI ao declarar no motu próprio “Summorum Pontificum” que o Rito Romano tradicional jamais fora ab-rogado, podendo e devendo ser celebrado em todas as paróquias do mundo, como comentou o Cardeal Hoyos (1). A capelania do Hospital é uma ocasião preciosa não apenas para realizar este desejo do Santo Padre, mas principalmente para demonstrar, por um lado, que os Ritos da Igreja têm a eficácia de levar as almas bem intencionadas à uma frutuosa participação da Liturgia mesmo quando não compreendidos, pois a sua piedade e beleza impregnam os fiéis de amor a Deus e ódio ao pecado, e por outro, que este Rito não é um “bloco monolítico” que ignora as necessidades pastorais dos fiéis, sobretudo dos mais ignorantes e endurecidos, pois é possível introduzir na sua celebração meios adequados para levá-los à dita participação frutuosa sem alterar o Rito. E aqui novamente afirmo a minha certeza de que a exclusividade do Rito Romano tradicional não enclausura os sacerdotes do Instituto Bom Pastor num mundo à parte, formado por católicos bem formados e geralmente “bem-nascidos”. Pelo contrário, cabe-nos muito mais formar do que ir apenas ao encontro dos formados, como Nosso Senhor, que não veio chamar os justos, mas os pecadores (cf. Mt. IX, 13). Assim, a cada dia que celebro a Missa no Hospital ponho à prova a minha formação sacerdotal e as minhas convicções, de que temos um carisma à parte sem viver num mundo à parte, mas o exercendo no meio do rebanho, como pedira o Papa Francisco (2). As confissões, os aconselhamentos, as bênçãos e a presença assídua de certos pacientes ou familiares na Santa Missa semanal são o fruto e a prova de que o Bom Pastor abandona as 99 ovelhas que já estão no aprisco para buscar aquela que se perdeu. 

 

Referências

(1) http://leblogdejeannesmits.blogspot.com.br/2008/05/la-messe-traditionnelle-doit-tre.html
(2) http://www.acidigital.com/noticias/o-papa-aos-sacerdotes-sede-pastores-com-o-cheiro-das-ovelhas-e-pescadores-de-homens-80276/ 

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